Entrevista - biólogo Wilson Savino (ganhador do Prêmio Dr. Eduardo Charreau)

Entrevista - biólogo Wilson Savino (ganhador do Prêmio Dr. Eduardo Charreau)

OEI. 02/06/2020
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A Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) tem a ciência como uma de suas áreas prioritárias e busca, dentre outras metas, colocar em evidência a importância do meio científico da região para o mundo. Neste momento de pandemia, a OEI teve a oportunidade de entrevistar o biólogo brasileiro Wilson Savino que há 35 anos trabalha na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Sua experiência traduz, em exemplos, os esforços das redes de cientistas ibero-americanos para obter benefícios mútuos e direcionar a ciência regional para o futuro.

Juntamente com o bioquímico Gabriel Rabinovich, da Argentina, o Dr. Wilson Savino foi ganhador do Prêmio Dr. Eduardo Charreau de Cooperação Científico-Tecnológica Regional. A premiação também fez uma menção especial à Drª. Fernández Cirelli, química argentina. O prêmio conta com a OEI na Argentina como uma das organizadoras e busca outorgar a produção científica realizada de forma cooperativa na região, além de homenagear o Dr. Eduardo Charreau, um dos maiores investigadores na área de endocrinologia molecular da Argentina.

O biólogo brasileiro tem uma longa carreira como cientista e extenso trabalho em cooperação científica internacional. Atualmente Wilson Savino é pesquisador e coordenador de estratégias de integração nacional na Fiocruz e membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Dentre outros méritos, em 2019, recebeu o título de doutor honoris causa na Universidade Sorbonne. Confira abaixo um pouco dessa trajetória e da relevância científica brasileira.

Foto: Guttemberg Britto IOC/Fiocruz


Qual a importância do Prêmio Dr. Eduardo Charreau de Cooperação Científico-Tecnológica Regional para o contexto da pesquisa científica brasileira?

Eu recebi o prêmio, só que ele represente muito mais. É um prêmio para o Brasil. É o reconhecimento da cooperação científica regional de instituições como a Fiocruz e pesquisadores brasileiros. Por exemplo, eu coordeno pelo Brasil um programa de pesquisa, educação e biotecnologia aplicada à saúde, financiado pelo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem). A iniciativa envolve Argentina, Paraguai e Uruguai, além do Brasil. O objetivo central é diminuir as diferenças entre os países. Um dos resultados dessa parceria é um programa de doutorado iniciado no Paraguai, voltado para jovens que vão ser inseridos dentro dos sistemas de saúde de seus respectivos países.


Apesar do contexto, o momento atual colocou o mundo da ciência em evidência. Como o senhor avalia essa situação?

Educação, ciência e cultura são forças motrizes que movimentam a sociedade e com uma pandemia de alto potencial letal, as pessoas têm percebido que é a ciência que vai descobrir os caminhos para ultrapassar de forma definitiva esse momento. Estou me referindo essencialmente à vacina e é a ciência que vai ser responsável pela descoberta de uma imunização.


O senhor tem participado de outras experiências exitosas em cooperação científico-tecnológica regional?

A cooperação internacional une os povos e melhora a qualidade de vida das pessoas como um todo. Permite que haja troca de experiência e de cultura. Por exemplo, a Fiocruz tem uma iniciativa em Moçambique, junto ao Instituto Nacional de Saúde daquele país, com a criação de um programa de pós-graduação em Ciências da Saúde para os funcionários do Estado. Um programa que vem formando mestres e doutores desde 2008. Na avaliação dos moçambicanos, isso mudou a qualidade do serviço do Instituto Nacional de Saúde de Moçambique.


E no âmbito nacional, as cooperações científicas têm evoluído?

Muito de nossos cientistas brasileiros têm essa atitude de cooperação internacional, particularmente com países da América Latina e da Península Ibérica. Isso se reflete também internamente. Por exemplo, por meio de um consórcio de pós-graduação, Rio de Janeiro, Paraná, Bahia e Ceará organizaram um programa de doutorado em biotecnologia e saúde na unidade da Fiocruz no Ceará. Isso reflete a própria ciência brasileira. É fazer ciência pela vida.