Brasília, 19 de maio de 2009.
NCI Noticias - Metas Educativas 2021

Álvaro Marchesi, Secretário Geral da OEI, responde à pergunta: Quais são os novos rumos da educação na Ibero-américa?


ENTREVISTA EXCLUSIVA DO SECRETÁRIO-GERAL DA OEI, ÁLVARO MARCHESI

A educação é um direito, a criatividade, uma necessidade, e a cooperação, uma ferramenta. O que acontece quando não se tem acesso à primeira? Quando a segunda não é estimulada? Ou quando não há terceiros interessados em preservar a terceira?

Há algumas semanas, concluiu-se em Lisboa (Portugal) as Conferências de Ministros de Cultura e Educação dos Estados Iberoamericanos. Entrevistamos Álvaro Marchesi, Secretário-Geral da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), que nos apresenta os projetos Metas Educativas 2021 e Carta Cultural Iberoamericana, além de previsões de cooperação entre as regiões iberoamericana e européia nos próximos meses.


Sobre as Conferências Ibero-americanas de Ministros de Cultura e Educação: abril 2009

El Portal (E.P.) Quais foram as principais conclusões das Conferências Iberoamericanas de Ministros de Cultura e de Ministros da Educação, realizadas recentemente em Lisboa?

Álvaro Marchesi (A.M.) A Conferência de Ministros de Educação teve duas conclusões fundamentais: primeiramente, apoiar e aprovar as “Metas Educativas 2021: a educação que queremos para a geração dos bicentenários”, que são as Metas em matéria de educação para a próxima década. E em segundo lugar, um projeto específico que antecipa as metas gerais sobre a educação infantil com vistas a atingir, nos próximos 12 anos, os 15 milhões de crianças entre 3 e 5 anos que ainda não freqüentam a escola, para que consigam fazê-lo por meio do esforço solidário de todos.

E. P. As Metas Educativas falam de alfabetização, mas também do acesso ao ensino superior. As ambições quanto à educação estão se elevando na região iberoamericana?

A. M. No debate que estamos travando para aprovar as Metas Educativas, no ano de 2010, durante as Reuniões de Cúpula de Ministros e de Chefes de Estado a serem realizadas na Argentina, estamos incorporando novas idéias, reflexões alternativas à proposta inicial de texto que fizemos. Para isso temos dado ênfase maior à educação infantil, ao ensino técnico-profissional, à educação superior e ao Espaço Ibero-americano do Conhecimento.

Queremos que as Metas Educativas invistam no que preocupa a sociedade iberoamericana e no que responde aos desafios atuais. Por isso, há iniciativas que em princípio não havíamos incorporado com tanta força e que agora, pelas demandas surgidas, assumem um protagonismo primordial.

E. P. Qual está sendo o investimento?

A. M. O projeto das Metas Educativas tem três pilares fundamentais: o primeiro é o acordo dos países e a concretização das metas de cada país; o segundo é a criação de um fundo solidário para apoiar os países mais pobres no cumprimento das metas, fundo este que calculamos vá girar em torno de dois milhões de dólares; e o terceiro pilar é um conjunto de programas solidários entre todos os países, de modo que sintamos o esforço iberoamericano para alcançar as Metas.

Nesse sentido, a OEI tem a função primordial de articular os projetos de cada país, coordená-los em um projeto conjunto e conseguir os recursos para apoiar os países que mais precisam.

E. P. Pode se afirmar que as Metas Educativas 2021 são os Objetivos do Milênio da Iberoamérica em relação ao ensino?

A. M. Sim. São objetivos tão importantes como os Objetivos do Milênio. Talvez sejam muito pensados a partir de e para a Iberoamérica, porque surgem da demanda dos países. São um pouco mais amplos que os Objetivos do Milênio, mas sem dúvida são objetivos educativos previstos para toda uma década no conjunto de países iberoamericanos, para provocar uma enorme diferença na educação que coloque estes países na primeira divisão da educação mundial.

As Metas Educativas 2021 foram publicadas no sitio web há sete meses e, desde então, a OEI registrou um pouco mais de trezentos mil downloads do texto completo, e quase um milhão de downloads de capítulos específicos.


Sobre a Carta Cultural Iberoamericana

E. P. Qual é esse espaço iberoamericano desejado por todos?

A. M. A Carta Cultural Ibero-americana é sem dúvida uma referência muito importante no conjunto dos países iberoamericanos. É uma pista, um caminho a seguir para consolidar algo que nos une. Algo tão importante como uma cultura compartilhada há vários séculos. O que queremos é que a maioria dos projetos que estamos impulsionados na cultura tenha como referencia a Carta Cultural e que os países consolidem esse espaço de encontro, a Iberoamérica, em torno da cultura.

E. P. Seria fomentar uma criatividade comum?

A. M. Na verdade o que queremos é que a Carta sirva como referência para os projetos em torno das artes, da música, do teatro, das iniciativas culturais coletivas, do patrimônio comum, permitindo que nos sintamos como parte de uma cultura da qual todos participamos.

E. P. Como está a criatividade em tempos de esquemas tão rígidos como as indústrias culturais contemporâneas?

A. M. A criatividade é uma das razões fundamentais tanto da Carta quanto do espírito iberoamericano. A iniciativa, a inovação e a imaginação são elementos inovadores e de identidade dos países iberoamericanos com relação a outras partes do mundo. Assim, a Carta Cultural aposta no fortalecimento e impulso a projetos de criatividade que nos distinguem e com os quais nos apresentamos perante o mundo.

E. P. Mencionava a criatividade em disciplinas como a música, o teatro… A Carta Cultural contempla incentivos ao cinema já que a Iberoamérica está apontando no mapa internacional potencias pujantes como a Colômbia, o México ou a Argentina?

A. M. Claro. Temos vários projetos que estão sendo impulsionados, sobretudo pela SEGIB (Secretaria Geral Ibero-americana), com o apoio de diversos países, voltados para o intercâmbio de trabalhos cinematográficos, bem como projetos como o Ibermúsica, o Ibermuseus [NCI Notícias] o Ibermídia, que nos ajudam a criar espaços compartilhados de aposta no cinema e que uns países conheçam a produção cinematográfica de outros para criar e apoiar uma indústria comum a serviço dos autores e atores iberoamericanos, embora cada país tenha particularidades próprias.


Sobre cooperação internacional

E. P. O compromisso já está assumido, mas em efeitos práticos, qual é o trabalho que a OEI colocará sobre a mesa na XIX Cúpula Iberoamericana de Chefes de Estado e de Governo?

A. M. Além das Metas Educativas 2021 e da Carta Cultural Iberoamericana, apresentamos outros dois grandes projetos. O primeiro deles é de “Arte/educação, cultura e a cidadania”, voltado para se conhecer as experiências nos diferentes países e compartilhá-las para criar uma cidadania multicultural nas escolas e nos países, que respeitem e usufruam da diversidade na qual vivemos.

O segundo projeto é o “Rotas da Liberdade”, que tem muita relação com o tema dos bicentenários, voltado para que os países valorizem os lugares emblemáticos que tiveram algo a ver com sua independência, para que sejam conhecidos pelos cidadãos de seu país e também os de outros países, para que sejam visitados e possam refletir sobre eles, encontrar expressões culturais, artísticas, dramáticas, de dança, etc. , servindo também para criar esta consciência coletiva iberoamericana dentro do respeito à diversidade de cada país e de cada cultura.

E. P. A Espanha exercerá no primeiro semestre de 2010 a Presidência do Conselho da União Européia. O Secretário de Estado para a Iberoamérica do Governo de Espanha falava há alguns dias sobre o compromisso de reforçar o papel de IberoAmérica na Europa. Que aspectos devem ser abordados com mais urgência?

A. M. Solicitamos ao Governo espanhol, e foi referendado pelos Ministros de Educação, que o projeto Metas Educativas 2021 faça parte da agenda da Cúpula União Européia - América Latina e o Caribe de maio de 2010. A resposta que temos recebido tem sido muito positiva. De fato, as declarações do Governo espanhol apontam para que a educação, a inovação e o conhecimento sejam os núcleos fundamentais de sua agenda para a Presidência da União Européia e para a Cúpula com América Latina e o Caribe.

Queremos que o Metas 2021 seja incluído entre seus programas prioritários e que algumas dessas metas sejam financiadas, em especial as referidas à educação infantil e à educação técnico-profissional. Tomara que Espanha seja a ponte entre a União Européia e América Latina para o projeto Metas Educativas 2021.