Estudo mostra
interiorização da violência no Brasil
Uol
Por Guido Nejamkis
BRASÍLIA (Reuters) - A violência no Brasil está atingindo cada vez mais as cidades pequenas, onde a omissão do poder público transformou alguns municípios em terra de ninguém, mostrou o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, elaborado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), com a colaboração do Ministério da Saúde.
O estudo, divulgado na terça-feira, revelou que um conjunto de cidades que equivale a apenas 10 por cento dos 5.560 municípios brasileiros concentrou 71,8 por cento dos homicídios registrados no país, segundo dados de 2004.
O ranking da violência fez da pequena cidade de Colniza, no Mato Grosso, com 12.400 habitantes, a "capital nacional dos homicídios", com uma taxa de 165,3 assassinatos por 100 mil habitantes, a maior do Brasil.
"O ambiente violento das grandes metrópoles está sendo reproduzido no interior", disse Daniel González, diretor da OEI no Brasil.
As cidades de Juruena e Coronel Sapucaia (Mato Grosso), Serra (Espírito Santo) e São José do Xingu (Mato Grosso) vêm depois de Colniza nessa ordem, como os municípios com as maiores taxas médias de homicídios.
"Trata-se de cidades que são terra de ninguém, com enormes conflitos pela terra, com os índios, com o desmatamento e a apropriação ilegal de áreas. São regiões muito afastadas, de difícil acesso, onde há ausência de políticas e do poder público", disse à Reuters o autor do relatório, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz.
Segundo o pesquisador, o Brasil passa por um "processo de reconfiguração espacial da criminalidade", caracterizado pela interiorização da violência.
Waiselfisz, para quem a violência no país chegou "a limites insuportáveis", afirmou que, entre as capitais, a cidade com maior taxa média de homicídios foi Recife.
Levando em conta os Estados e o Distrito Federal, Rio de Janeiro e Pernambuco lideram o ranking de assassinatos.
Na apresentação do estudo, o ministro da Saúde, Agenor Alves, afirmou que "os dados não são nada animadores", mas disse que eles servirão para a adoção de políticas públicas focalizadas. "É uma situação alarmante, preocupante", disse o ministro a jornalistas.
O Brasil registrou 48.345 homicídios em 2004, e é considerado o quarto país com mais assassinatos, atrás de Colômbia, Rússia e Venezuela. Mas Waiselfisz acredita que o total de homicídios no Brasil seja 15 por cento maior que o oficial, devido à subnotificação. Nesses casos, disse ele, as vítimas são enterradas em cemitérios clandestinos ou simplesmente abandonadas em lugares ermos, nas selvas ou nos rios.
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