Violência no interior
Diário do Nordeste

As últimas estatísticas divulgadas sobre o crescimento da violência no Brasil trazem uma constatação contrária ao que se imaginava nos últimos tempos. Segundo o estudo contido no Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, a taxa de homicídios cresceu mais nas cidades pequenas do que nas capitais e metrópoles. Dos dez municípios com maior índice de assassinatos, só dois têm mais de 100 mil habitantes. O estudo é de responsabilidade do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI).

Por singular paradoxo, uma das principais causas apontadas para essa mudança é o desenvolvimento econômico das cidades interioranas, motivado pela chegada de maior número de indústrias e investimentos, em decorrência das facilidades fiscais e da mão-de-obra barata. Como o dinheiro começou a correr, de maneira mais notória, nas pequenas cidades, atraiu para elas a atenção da criminalidade e fez recrudescer, com indesejável intensidade, a presença de marginais para minar sua paz e abalar sua tranqüilidade.

Cinco dos dez municípios com as maiores taxas de homicídios localizam-se na Amazônia, em regiões onde são assinaladas perspectivas de desenvolvimento. É como se os pólos de violência viessem se deslocando das regiões mais povoadas para os rincões dos Estados. De acordo com as estatísticas, enquanto as taxas de homicídios das capitais e regiões metropolitanas cresceram em torno de 0,8% ao ano, no interior, o aumento foi de 5,3%.

A alta incidência registrada em áreas como as situadas na Amazônia é também atribuída à escassa presença de agentes do poder público e de ausência de instrumentos repressores ostensivos, além da quase absoluta impunidade em relação aos crimes cometidos. Para a OEI, a solução para a criminalidade não deveria partir, exclusivamente, de uma política nacional centralizada, pois as situações regionais características estão a exigir soluções específicas para cada tipo de problema.

O contrabando de armas e o tráfico de drogas nos municípios de fronteira, ou os conflitos decorrentes da demarcação de terras e do assentamento nas áreas rurais, não são similares aos gerados pela violência urbana das grandes cidades, onde fatores sociais como o desemprego e o abandono das áreas periféricas são outros sérios problemas a considerar. Existe também o que a OEI chama de ´cultura homicida´, em alguns Estados, pela qual quase todos os conflitos só chegam a termo através de drásticas e sangrentas equações letais. A civilização parece não ter chegado a esses territórios de faroeste.

A interiorização da violência, tanto quanto os perigos cotidianos aos quais são expostos os habitantes das regiões metropolitanas, já despertou indignação generalizada na população ordeira e pacífica. A sociedade espera que não enfrentem maiores obstáculos os projetos ora em tramitação no Congresso Federal, com o premente objetivo de conter essa devastadora onda de criminalidade e violência que compromete a imagem do Brasil.