Interior no centro do Mapa da Violência
Hoje em Dia - Brasília-DF

Renata Chamarelli

DA SUCURSAL

BRASÍLIA - A violência está migrando para os municípios de pequeno porte. O dado já constatado em Minas, onde os assaltos a banco no interior e a violência nos vales do Jequitinhonha e Mucuri desafiam a polícia, é a principal conclusão do Ministério da Saúde, que divulgou ontem o «Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros», elaborado em conjunto com a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). O mapa revela outra realidade assustadora: um aumento de 64,2% no número de homicídios da população jovem brasileira, entre 1994 e 2004. O estudo trouxe dados sobre a mortalidade causada por três fat ores externos: homicídios, óbitos por armas de fogo e acidentes de transportes. Minas teve um desempenho bastante negativo: subiu da 25ª para a 15ª posição nas ocorrências de homicídios no país.

De acordo com o sociólogo responsável pelo estudo, Julio Jacobo Waiselfisz, até 1999, os pólos de violência se encontravam em grandes capitais. No entanto, após essa data, um movimento inverso foi registrado. «A partir de 2000, verificamos a estagnação da violência nas regiões metropolitanas de grande peso demográfico e a continuidade da violência nos municípios do interior», destacou. Segundo ele, o fenômeno é decorrente da descentralização do desenvolvimento econômico do país, que foi impulsionada pelo surgimento de novos pólos no interior dos estados.

O ministro da Saúde, Agenor Álvares, afirmou que o Governo gasta cerca de R$ 2 bilhões por ano em situações de emergência e alta complexidade. Ele disse ter ficado surpreso com a interiorização da violência revelada pelo levantamento e defendeu a ela boração de políticas públicas integradas. «É nos municípios pequenos, onde impera a lei da impunidade, que a violência está crescendo. É necessário que Legislativo, Executivo e Judiciário trabalhem em conjunto para ajudar a resolver o problema», avaliou. Como exemplo, ele citou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que é prestado pelos estados, municípios e bombeiros.

Waiselfisz destacou ainda que, do total de 5.560 municípios avaliados pelo levantamento, 556 concentram as maiores taxas de homicídio. Embora representem apenas 10% dos municípios, eles reúnem 71,8% do total de homicídios ocorridos no país em 2004. Cada estado possui ao menos um município integrante do grupo dos 10%, tendo Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rondônia registrados os piores índices. Já no outro extremo estão Acre, Amazonas e Piauí.

Mais que a guerra

Segundo o sociólogo, o alarmante índice de homicídio dos jovens, de 15 a 24 anos, supera com larga vantagem as taxas de países em guerra. Para se ter uma idéia, o número é bem mais elevado que as taxas de homicídio da população em geral: 48,4% registrados pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, entre 1994 e 2004. «O Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking da Organização Mundial da Saúde de mortalidade juvenil, perdendo apenas para Colômbia e Venezuela», apontou.

Nessa faixa etária, os grandes centros ainda são os principais pólos de violência. Em primeiro lugar no ranking da taxa de homicídios de jovens está o Rio de Janeiro, que chega ao patamar de 102,8 homicídios em cada 100 mil jovens. O estado ocupa a posição desde 1994. Em segundo, está Pernambuco, que subiu cinco posições no ranking, saindo do sexto lugar para o segundo em número de homicídios de jovens. Em seguida, vem o Espírito Santo.

O Mapa da Violência nos Municípios Brasileiros mostrou que 39,7% das mortes de jovens acontecidas em 2004 foram por homicídio e a proporção vem crescendo a cada ano.

Piora a posição de Minas

Jaqueline da Mata

Repórter

Minas Gerais não tem o que comemorar. Se em 1994 o Estado ocupava a 25ª posição em número de homicídios totais, passou para o 15º lugar em 2004. As vítimas são preferencialmente jovens. Para o subscretário de Defesa Social de Minas Gerais, Luis Flávio Sapori, a pesquisa vem confirmando a tendência já diagnosticada pelos órgãos competentes mineiros. No caso da crescente participação de jovens como vítimas, são múltiplos os fatores dessa situação, como por exemplo, a exclusão de adolescentes da periferia na tentativa de inserção na sociedade. Entre 1994 e 2004, os homicídios entre indivíduos dessa população saltaram no país, de 11.330 para 18.599. Estes números são cem vezes superiores aos de países como Áustria, Japão, Egito ou Luxemburgo.

Outro ponto destacado por Sapori e que, de acordo com ele, não pode deixar de ser relacionado com a estatística é a questão do tráfico de drogas. «O tráfico de drogas tornou-se extremamente útil para a inserção dess es adolescentes na sociedade cada vez mais individualista e consumista assim como para o favorecimento econômico desses jovens», diz o subsecretário.

Apesar disso, em sua avaliação, Minas Gerais vem confirmando resultados positivos com políticas públicas voltadas para a punição de jovens transgressores e ao mesmo tempo oferecendo oportunidade de reinserção na sociedade para aqueles que se encontram em situação de risco.

O estudo aponta também que é nos finais de semana que os homicídios juvenis aumentam 80%. A grande maioria, 92,1% das vítimas, é do sexo masculino.

Colômbia

Entre 84 países que serviram de base para o estudo da OEI, do Mapa da Violência nos Municípios Brasileiros, o Brasil ocupa a 4ª posição no ranking do número de homicídios só perdendo para a Colômbia: foram 27 homicídios em 100 mil habitantes no período de 10 anos (1994 a 2004). É na faixa jovem dos 15 aos 24 anos que os homicídios atingem maior expressividade, principalmente dos 20 aos 24 anos, com taxa s em torno de 65 homicídios por 100 mil jovens. Dos 14 aos 17 anos, que os homicídios vêm crescendo em ritmo assustador, com pico nos 14 anos, onde os homicídios, de 1994/2004 cresceram 63,1%.

Betim, o mais violento do Estado

Renata Chamarelli

Da Sucursal

BRASÍLIA - Betim foi o município mineiro que registrou as maiores taxas de violência. Localizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a cidade ultrapassou a capital nos índices totais de homicídios do «Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros». Entre os 556 municípios mais violentos dos país, Betim aparece na 68ª posição, com uma taxa média de 63,7 homicídios em cada cem mil habitantes. O prefeito da cidade, Carlaile Pedrosa (PSDB), afirmou ontem que os números são verídicos e indicam uma «triste realidade», mas garante que de 2003 a 2006 houve queda de 6% nos homicídios em Betim.

Em seguida está Contagem e Ribeirão das Neves, também localizados na RMBH, com 58 homicídios em cada cem mil habitantes. Sã o ao todo 19 municípios mineiros que estão entre os 10% mais violentos do país. Belo Horizonte ocupa a 128ª posição no país.

Em relação ao número de homicídios na população geral, Minas Gerais aparece em 15º lugar, com uma média de 22,6 homicídios a cada cem mil habitantes. O número representa uma piora nos índices de violência do Estado. Na taxa de homicídio juvenil mineiro também foi verificada elevação nas taxas. Hoje, Minas registra 46,7 homicídios em cada cem mil jovens.

Do total de 853 municípios mineiros avaliados pelo estudo, 35 estão entre os 10% mais violentos para juventude. Betim aparece novamente como o município mais violento, seguido por Santa Cruz de Minas e Santa Luzia, localizados na RMBH, aparecem em segundo e terceiro lugar entre os mineiros. Novamente, Belo Horizonte, que aparece em 5º lugar no ranking mineiro, é ultrapassada por municípios menores.

Impunidade angustia famílias mineiras

Alex Araújo

Repórter

A impunidade e a escalada da violência no país assustam a sociedade e a cada dia mais e mais famílias de vítimas mergulham em traumas profundos, com duração indefinida. É o caso da professora Marinês Lina, 40 anos, que cujo marido foi brutalmente assassinado na Chacina de Unaí, na Região Noroeste de Minas, ocorrida em 28 de janeiro de 2004. Eratóstenes Almeida, então com 42 anos, foi fuzilado quando fiscalizava o cumprimento da legislação trabalhista em lavouras de feijão. «A minha vida foi totalmente destruída. É inacreditável pensar que o meu marido saiu saudável e perfeito para trabalhar e voltou morto. À Vezes penso que estou sonhando», desabafa.

Marinês Lina lamenta profundamente o fato de as vítimas terem sido pessoas de bem, honestas e trabalhadoras. «A cada dia tento sobreviver. Não consigo sequer planejar um projeto de vida para o futuro porque a perda de Eratóstenes me sufoca», disse. Ela torce para que sua rotina volte ao normal, principalmente para tranqüilizar sua filha de 9 anos. «Busquei na minha profissão um a poio para continuar a viver, mas a sensação que eu tenho é de que ele vai voltar para casa a qualquer momento». Ainda segundo a viúva, a morosidade em condenar os culpados pelo crime faz com que a dor aumente a cada dia. «Isso me traz muita angústia», desabafa.

O pecuarista José Adilson da Silva, 60 anos, engrossa o coro dos que clamam por Justiça. Ele viu sua filha, a representante comercial Ana Paula Nápoles da Silva, 28 anos, assassinada em uma blitz desastrada da Polícia Militar na MG-010, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no dia 25 de fevereiro de 2004. A jovem foi atingida por dois tiros na cabeça. Até hoje o crime continua impune. «Vivemos com medo, transtornados. A morte dela foi uma execução sumária feita por PMs despreparados», diz Silva, que considera o o corporativismo da polícia uma forma de ocultar os culpados pelo crime. «Ninguém faz nada e, enquanto isso, a gente vai vivendo sem liberdade e segurança. Criei uma filha para que ela fosse assassinada por bandidos de farda».

Segundo ele, o neto Ítalo, de 7 anos, filho de Ana Paula, também vive apreensivo e, constantemente, chora de saudades da mãe. «Ele se tranca no quarto para chorar enquanto os verdadeiros bandidos estão soltos», disse, revelando que os reflexos do trauma estão espalhados por toda a família. Sua mulher, revela, vive à base de remédios e desempenha, como pode, a função que era de Ana Paula.

A sensação de impunidade de Marinês Lina e Silva é compartilhada pela comerciante Elba Soares da Silva, 43 anos, que também perdeu o marido, o fiscal Nelson José da Silva, 52 anos, na Chacina de Unaí. «Me sentirei em paz somente quando os acusados forem condenados. Acredito que só assim os mortos estarão totalmente enterrados. A partir daí, terei mais força para recomeçar a vida», afirma. Ela revela que uma de suas maiores angústias é encontrar com freqüência pelas ruas de Unaí os acusados de participar da chacina.

Maioria dos crimes em 10% das cidades

As mortes por homicídios n o Brasil concentram-se em 556 de 5.560 municípios brasileiros, ou seja, cerca de 10%, segundo um estudo elaborado pela Organização dos Estados Ibero-americanos para Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) com apoio do Ministério da Saúde. Dos 48.345 óbitos por esta causa, registrados em 2004, 34.712 aconteceram nessas cidades. De acordo com o estudo, com base em dados de 1994 a 2004, isso mostra um crescimento da violência no interior do país, e não só nas grandes capitais e regiões metropolitanas.

O estudo ampliou as pesquisas sobre violência, até então realizadas nos grandes centros. As mortes violentas vêm ocorrendo com maior intensidade no interior, principalmente na região Centro-Oeste. Entre as dez cidades com maior taxa de mortalidade, quatro são do Mato Grosso - Colniza (1º), Juruena (2º), São José do Xingu (5º), Aripoanã (8º). Os demais são Coronel Sapucaia (MS), em 3º, Serra (ES), em 4º, Vila Boa (GO), em 6º, Tailândia (PA), em 7º, Ilha de Itamaracá (PE), em 9º, e Macaé (RJ), em 10º. A cidade mais violenta, Colniza (MT), registrou, em 2004, 165,3 óbitos por 100 mil habitantes.

No país, a média foi de 27,2 mortos na mesma comparação. A primeira capital brasileira na lista das cidades mais violentas é Recife, em 13º lugar, com registro de 91,2 pessoas mortas para cada 100 mil habitantes. Na seqüência, longe da lista dos dez mais violentos, vem Vitória (ES), Goiânia (GO) e Rio de Janeiro (RJ).

Este mapa busca aprofundar as investigações sobre um fenômeno que há muito deixou de pertencer apenas aos grandes centros urbanos. A interiorização da violência vem-se revelando como mais um desafio para toda a sociedade brasileira», registra o estudo de autoria do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz.

Urbanização é fator decisivo

Jaqueline da Mata

Repórter

A violência no trânsito também entra nas estatísticas da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). Para o diretor da instituição, Daniel González, a crescente urbanização do país tem contribuído para o incremento das taxas de mortalidade por acidentes de trânsito, homicídios e uso de armas de fogo. Para se ter uma idéia, o número de acidentes de trânsito passou de 29.527, em 1994, para 35.674 em 2004 - aumento de 20,8% (número que chega a ser superior ao crescimento populacional do país, que foi de 16,5% no mesmo período).

A pesquisa, no âmbito de óbitos por acidentes de trânsito, caracteriza três grandes períodos, todos relacionados com o Código de Trânsito Brasileiro, instituído em 1997. No primeiro, anterior ao novo código (1994 a 1997), observa-se aumento significativos no número de mortos, ano a ano. No segundo, (1997 a 2000) os números diminuem sensivelmente, principalmente em 1998, quando a queda referente a 1997 foi superior a 13%. Nos anos subseqüentes (1999 a 2000), as quedas foram moderadas, na ordem de 2% ao ano. A partir de 2000, como mostra a pesquisa, os óbitos passaram para 4,8% ao ano. O problema se agrava nos finais de semana, quando o í ndice aumenta 72,4% para a população em geral e para 1.321,6% entre os jovens.

Prefeitura de Ewbank reage

Jacqueline Lopes

Da Sucursal

EWBANK DA CÂMARA - Com 3.800 habitantes, uma frota de automóveis que não ultrapassa 250 veículos e nenhuma ocorrência de trânsito registrada no último ano, Ewbank da Câmara, na Zona da Mata, não recebeu bem sua inclusão nas lista de municípios com maior taxa de óbitos por acidente de transportes, divulgada ontem pela OIE. ‘Infelizmente somos cortados no meio pela BR-040 e estamos num dos trechos mais perigosos da rodovia‘, diz o prefeito Paulo Soares (PSC), que por várias vezes solicitou ao Governo federal providências para aumentar a segurança no trecho da rodovia que passa pelo município e onde são registrados os acidentes de trânsito. Margeando a rodovia há sete ruas, de um total de 30 em toda a zona urbana do município, e onde, segundo dados da Polícia Militar, desde janeiro do ano passado não foi registrada qualquer ocorrência de trân sito.

Pelos dados do Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, Ewbank ocuparia a 32ª posição no ranking de 556 municípios com maior taxa de óbito por acidentes de transporte, em 100 mil habitantes. Isso significa dizer que, no período da pesquisa (2002 e 2004), o município registrou 98,9 óbitos por 100 mil habitantes (em números absolutos, cerca de 4 mortes). Considerando apenas os municípios mineiros incluídos na tabela, Ewbank só estaria atrás de São Gonçalo do Rio Abaixo e Córrego Danta. Para reduzir os acidentes, a Polícia Rodoviária Federal passou a realizar fiscalizações diárias no trecho, onde mantém durante todo o dia um radar móvel.

Força bruta

Mapa da violência no Brasil (1994 a 2004)

Posição dos municípios de Minas Gerais com maiores taxas médias de homicídios (em 100 mil habitantes) na população total - 2002/2004, em 556 municípios pesquisados

Betim: 68ª

Contagem: 93ª

Belo Horizonte: 128ª

Santa luzia: 134ª

Teófi lo Otoni: 140ª

Ibirité: 181ª

São Joaquim de Bicas: 204ª

Governador Valadares: 207ª

Sobrália: 232ª

Vespasiano: 300ª

Esmeraldas: 311ª

São Gonçalo do Abaeté: 339ª

Felisburgo: 352ª

Queluzito 354ª

São Sebastião do Maranhão: 379ª

Antônio Dias: 446ª

Homicídios Juvenis:

Estado posição em 1994 posição em 2004

Minas Gerais 24º 12º

Vitimização juvenil por homicídios:

Região jovem não jovem índice de vitimização

Minas Gerais 46,7 16,6 181,3

Brasil 51,7 20,8 148,4

Mapa da violência

Municípios mineiros com maiores taxas média de óbitos por armas de fogo (em 100 mil habitantes) na população total 2002/2004

Município ordem

Betim 42º

Contagem 49º

Ribeirão das Neves 62º

Belo Horizonte 74º

Santa Luzia 111º

Ibirité 135º

Governador Valadares 162º

Vespasiano 193º

Teófilo Otoni 199º

Esmeraldas 223º

Sobrália 242º

São Joaquim de Bicas 261º

Papagaios 281º

São Sebastião do Maranhão 349º

Felisburgo 364º

Diogo de Vasconcelos 395º

Pirajuba 399º

São Gonçalo do Abaeté 409º

Gurinhatã 411º

Florestal 488º

Santa Cruz de Minas 511º

Serra do Aimorés 522º

Fonte: OEI