Ausência do poder público cria "terras de nínguém"
Gazeta Mercantil - São Paulo-SP

Brasília, 28 de Fevereiro de 2007 - A violência no Brasil está atingindo cada vez mais as cidades pequenas, onde a omissão do poder público transformou alguns municípios em terra de ninguém, mostrou o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, elaborado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), com a colaboração do Ministério da Saúde.

O estudo, divulgado ontem, revelou que um conjunto de cidades, que equivale a apenas 10% dos 5.560 municípios brasileiros, concentrou 71,8% dos homicídios registrados no País, segu ndo dados de 2004.

O ranking da violência fez da pequena cidade de Colniza, no Mato Grosso, com 12.400 habitantes, a "capital nacional dos homicídios", com uma taxa de 165,3 assassinatos por 100 mil habitantes, a maior do Brasil. "O ambiente violento das grandes metrópoles está sendo reproduzido no interior", disse Daniel González, diretor da OEI no Brasil.

As cidades de Juruena e Coronel Sapucaia (Mato Grosso), Serra (Espírito Santo) e São José do Xingu (Mato Grosso) vêm depois de Colniza nessa ordem, como os municípios com as maiores taxas médias de homicídios.

"Trata-se de cidades que são terra de ninguém, com enormes conflitos pela terra, com os índios, com o desmatamento e a apropriação ilegal de áreas. São regiões muito afastadas, de difícil acesso, onde há ausência de políticas e do poder público" declarou o autor do relatório sobre o tema, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz.

Segundo o pesquisador, o Brasil passa por um "processo de reconfiguração espacial da crimin alidade", caracterizado pela interiorização da violência. Waiselfisz, para quem a violência no país chegou "a limites insuportáveis", afirmou que, entre as capitais, a cidade com maior taxa média de homicídios foi Recife.

Levando em conta os estados e o Distrito Federal, Rio de Janeiro e Pernambuco lideram o ranking de assassinatos.

Na apresentação do estudo, o ministro da Saúde, Agenor Alves, afirmou que "os dados não são nada animadores", mas disse que eles servirão para a adoção de políticas públicas focalizadas. "É uma situação alarmante, preocupante.".

O Brasil registrou 48.345 homicídios em 2004, e é considerado o quarto país com mais assassinatos, atrás de Colômbia, Rússia e Venezuela. Mas Waiselfisz acredita que o total de homicídios no Brasil seja 15% maior que o oficial, devido à subnotificação.

Nesses casos, disse ele, as vítimas são enterradas em cemitérios clandestinos ou simplesmente abandonadas em lugares ermos, nas selvas ou nos rios.

(Gazeta Mercan til/Caderno A - Pág. 5)(Reuters)