10% dos municípios concentram 71,8% dos homicídios no Brasil
G1
Globo - Humberto Viana - Brasília-DF
Humberto Viana Do G1, em Brasília
entre em contato
A Organização dos Estados Ibero-Americanos divulgou, nesta terça-feira (16),
a pesquisa Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, versão mais abrangente
do Mapa da Violência 2006 – Os Jovens do Brasil, lançado em novembro de 2006.
Trata-se de um diagnóstico referente a cada um dos 5.560 municípios brasileiros
referente ao período que compreende os anos de 1994 e 2004.
Os resultados, obtidos com base nos dados do Sistema de Informações sobre
Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, foram reveladores. O estudo mostra
que 10% dos municípios brasileiros concentram 71,8% dos homicídios, e que,
desde 1999, a
violência vem crescendo no interior dos estados e estagnando nas regiões
metropolitanas.
Os óbitos por homicídio no Brasil acontecem principalmente em 556 cidades. Dos
48.345 óbitos por esta causa, ocorridos em 2004, 34.172 foram registrados
nessas cidades. São os 10% de municípios com taxas de 29,7 até 165,3 homicídios
em cada 100 mil habitantes. Os estados com maior número de municípios violentos
são Pernambuco, Rio de Janeiro e Rondônia. Os números são mais alarmantes se
comparados aos civis mortos na invasão do Iraque, que já contabilizam quase 63
mil em quatro anos de conflito.
A pesquisa mostra que as regiões Centro-Oeste e Norte são campeãs na taxa média de homicídio. Das dez cidades com maiores taxas, seis encontram-se no Centro-Oeste. A cidade de Coloniza (MT) lidera o ranking nacional. Entre 2002 e 2004, foi registrada na cidade média de 165,3 homicídios em cada 100 mil habitantes. A segunda opção é Juruena, também no Mato Grosso, com taxa média de 137,8 homicídios. A terceira é o município é Coronel Sapucaia (MS), com taxa média de 116,4 homicídios.
|
10% dos municípios com maiores taxas médias de homicídios (em 100 mil habitantes) na população total |
|||
|
Município |
UF |
Taxa média |
Ordem |
|
Colniza |
MT |
165,3 |
1º |
|
Jurena |
MT |
137,8 |
2º |
|
Coronel Sapucaia |
MS |
116,4 |
3º |
|
Serra |
ES |
111,3 |
4º |
|
São José do Xingu |
MT |
109,6 |
5º |
|
Vila Boa |
GO |
107,0 |
6º |
|
Tailândia |
PA |
104,9 |
7º |
|
Aripuana |
MT |
98,2 |
8º |
|
Ilha de Itamaracá |
PE |
95,1 |
9º |
|
Macaé |
RJ |
94,5 |
10º |
“Os dados apontam uma mudança na configuração espacial da violência nos últimos
anos”, disse o Júlio Waiselfiz, pesquisador e coordenador da pesquisa. Segundo
Waiselfíz, “Os noticiários sobre violência se concentram em quatro ou cinco
estados. Vimos que existe um alto grau de incidência de homicídios em cidades
que nem sabíamos que existiam no mapa. É necessário políticas específicas para
essas regiões.”
Violência no interior
Outro dado importante apontado pelo Mapa é um
fenômeno que vem se consolidando. Desde 1999 a violência cresce no interior dos
estados, enquanto que nas regiões metropolitanas permanece estagnada.
A explicação, conclui a pesquisa, está no desenvolvimento econômico do país,
que naturalmente cria novos pólos de crescimento no interior dos estados. “Na
última década o interior passou a concentrar uma quantidade maior de recursos.
Esse desenvolvimento não veio acompanhado de políticas preventivas de
violência, como o Plano Nacional de Segurança, que ficou restrito a áreas
metropolitanas”, explica Waiselfíz.
O Jovem e a violência
O Brasil ainda ocupa posição nada honrosa no quadro mundial no total geral
de homicídios. Entre 84 países do mundo com taxa total de 27 homicídios a cada
100 mil habitantes, o Brasil ocupa a 4ª posição no ranking, só melhor que
Colômbia, e com taxas semelhantes às da Rússia e da Venezuela. As taxas de
homicídio de 2004 são ainda 30 ou 40 vezes superiores às taxas de países como
Inglaterra, França, Alemanha e Egito.
Entre os jovens, a situação é ainda mais grave e coloca o Brasil na 3ª posição,
com taxa de 51,7 homicídios por 100 mil jovens, em 2004. Os índices brasileiros
são 100 vezes superiores aos de países como Austrália, Japão e Egito.
Julio Waiselfiz não acredita que as medidas discutidas no Congresso, como a
revisão da maioridade penal, seja a solução para a violência no país. “Não
existe correlação entre violência e repressão da juventude. Não é modificando a
lei que se vai reverter o quadro no Brasil”, diz.
Para Waiselfiz, a solução passa por uma política
específica de juventude. “Temos evidências de que os crimes de homicídio
acontecem por proximidade e motivos fúteis. Geralmente vêm de um problema
cultural. Para isso existem experiências bem sucedidas como a lei seca, as
escolas abertas e a mobilização da sociedade”, diz o pesquisador.