Latifundiário
da "lista suja" nega pressão sobre militante da CPT
Repórter Brasil
Sebastião
Neves de Almeida, o "Chapéu Preto", que está na "lista suja"
do trabalho escravo, rebate as acusações de ameaças de morte à
missionária irmã Leonora, da Comissão Pastoral da Terra. E
discorda do estudo que aponta o norte do Mato Grosso como uma
das regiões mais violentas do
Brasil
Por Mauricio Monteiro Filho
Chapéu Preto
é a alcunha do fazendeiro Sebastião Neves de Almeida. Ele
ganhou alguma notoriedade no Brasil ao aparecer em
notícias que o associam a acusações de crimes como grilagem de
terras, envolvimento com pistoleiros e conflitos com
trabalhadores rurais. Tanto que seu apelido foi traduzido para
outros idiomas. Reportagens de veículos de mídia
internacionais fazem menção a "Black Hat" ou a "Sombrero
Negro", reforçando a reputação negativa.
Sebastião faz parte da lista dos empregadores
que se utilizaram de mão-de-obra escrava, a "lista
suja" divulgada pelo Ministério do Trabalho e
Emprego (MTE). Uma fiscalização do MTE encontrou 126
trabalhadores escravizados em sua fazenda Cinco Estrelas,
no município de Novo Mundo. A área, no norte do Mato Grosso,
foi apontada, por
estudo
publicado em fevereiro pela Organização dos Estados
Ibero-Americanos (OEI), como uma das mais violentas do
Brasil. O município de Colniza, na região, foi o líder
nacional em homicídios - 165,3 por 100.000 habitantes.
Após ter lido
entrevista
com a militante da Comissão Pastoral, irmã Leonora
Brunetto, publicada pela Repórter Brasil em março,
Sebastião Neves entrou em contato com a agência, através de
seu advogado. Pedia espaço para responder à denúncia de que
ele estaria por trás das ameaças de morte que pesam contra a
missionária. E para contradizer as informações de que
ele seria "o fazendeiro mais perigoso da região de Alta
Floresta". Ele nega também que o apelido tenha qualquer
relação com "pistolagem". "Muitas pessoas associam, mas não
tem nada a ver", afirma.
Na entrevista abaixo, Sebastião não só se defende das
acusações, mas também nega que o norte do Mato Grosso seja uma
área de muitos conflitos, o que parece ser um consenso. "Não
tem violência aqui, não", atesta.
Sua opinião contrasta com o que ele mesmo vivencia em uma de
suas propriedades, uma área que tem indícios de grilagem, no
município de Nova Guarita, também Mato Grosso. Lá, cerca de
350 famílias formam o acampamento Renascer, que já foi atacado
por uma milícia comandada, segundo informações locais, por
Sebastião. O próprio latifundiário também já foi vítima de um
atentado a tiros.
Repórter Brasil - O estudo da OEI diz que a região
próxima a Alta Floresta, Mato Grosso, é a área mais violenta
do Brasil, em número de homicídio por habitante. Você concorda
que essa seja uma região tensa?
Sebastião Neves de Almeida - Não. É uma
região calma. Não tem essa nervosidade, não. Aqui era uma
região de garimpos, e na época era mais violenta. Mas, agora,
tem mais fazendas e não tem muito conflito. O pessoal do campo
é pacífico. O garimpo era mais agitado.
Mas existem propriedades suas que foram alvo de
ocupação por parte de trabalhadores sem-terra. Isso não é um
fator que gera mais violência entre grupos de fazendeiros e de
agricultores?
Não, eles são agressivos, mas a gente procura se defender. Mas
eu não me misturo muito, não tem muita transação com eles.
Isso é uma guerra: os sem-terra querem tomar as áreas da
gente, e a gente procura se defender na justiça... Até já
levei um tiro, mas acho que foi bobeira minha ter ido lá [no
acampamento]. Hoje, me preservo mais.
Em suas fazendas, costuma ter boas relações com os
trabalhadores? Tem alguma queixa deles?
Eu já tive um problema na Justiça do Trabalho. Um cara
procurou me denunciar, porque tinha muita dívida, de uma
empreita minha que tinha para fazer - aqui não é costume
registrar ninguém -, mas ele não tinha nem começado o trabalho
ainda.
E foi isso que o levou para a "lista
suja"?
Sim, foi isso. Mas eu já paguei tudo, todas as taxas do
Ministério do Trabalho. Mas foi um transtorno grande, levaram
minha mulher presa.
Por que ela foi presa?
Os denunciantes diziam que era ela quem executava as ordens.
Fizeram uma grande armação. Mas estamos superando essa
situação.
Você diz que tem boas relações com seus trabalhadores,
mas, segundo o Grupo Móvel de Fiscalização do MTE, as
denúncias partiram de empregados que chegaram a fugir de suas
propriedades. Alguns diziam inclusive que sofreram
maus-tratos. Isso é verdade?
É o seguinte: depois que os trabalhadores pegam o dinheiro, o
abono, eles esquecem tudo que você fez por eles. Só que eu não
tinha relação com eles, porque não tinha conhecimento nenhum
com os peões. Não sabia, como diz o ditado, se eram brancos,
ou se eram pretos.
Há também informações de que trabalhadores que estejam
procurando emprego nas fazendas da região de Alta Floresta e
cidades vizinhas se recusam a trabalhar nas suas terras. Você
já ouviu falar sobre isso? Acha que há razão para agirem
assim?
Não. A gente nem trabalha mais com serviço braçal,
porque ficou muito crítico. Hoje, estou arrendando as terras,
para não ter que mexer com gente. Porque é muito ruim.
Estamos usando mais máquinas, para não envolver muito o
ser humano, que é duro para administrar, porque a gente
não dá conta das idéias. Tenho boa intenção, mas o cara
está pensando em pegar seu dinheiro, ir embora, te passar pra
trás...
Durante a fiscalização de sua fazenda, você fugiu. Se
não conhecia nenhum dos trabalhadores, por que fez
isso?
Porque quando eles [o Grupo Móvel e a Polícia Federal] vêm
aqui para prender, pintam na gente uma imagem de que somos um
terror. E as conversas eram de que "se encontrassem o Chapéu,
era para fuzilar". Como eu tenho muita coisa para cuidar,
também tenho receio. Tenho obrigações e medo desse terrorismo.
Você sabe muito bem que eles vêm aqui para arrasar. Disseram
que era bom eu me afugentar, se não seria preso, iriam tomar
minhas terras. Enquanto eu estava foragido e a minha mulher
foi presa, uma fazenda minha, no município de Nova Guarita,
foi invadida. Um dos rapazes que deu parte foi orientado pela
irmã [Leonora] a invadir. Ela deu força [para a ocupação].
Por conta disso, você tem algum rancor da irmã
Leonora?
Não. Eu não tenho conhecimento nenhum com ela, nem raiva. Isso
faz parte do nosso trabalho: ela puxa de um lado, eu puxo de
outro. É um jogo.
Há informações de que ela é ameaçada por fazendeiros
da região, e um deles seria você. Já a ameaçou?
Não tenho conhecimento disso, não. E eu não concordo
com essa prática. Mas fofoca tem muita. Até meu advogado
queria ver se tínhamos um encontro com ela, mas não foi
possível ainda.
Caso se encontrasse com ela, o que diria?
Às vezes, a gente faz alguma burrice, mas eu não tenho nada
contra ela. Eu só digo que não é verdade quando ela me
denuncia nos jornais como empregador de pistoleiros. Dizem que
eu tenho duzentos pistoleiros, mas eu não sei nem do que estão
falando. Eu nem tenho potencial para ter duzentos homens
armados para enfrentar a religiosa.
O que você pensa sobre os trabalhadores envolvidos em
movimentos rurais - MST e outros?
Acho que todo mundo tem o direito [de lutar pela terra]. Só
que tem que ser pelos canais certos. Eles têm que procurar uma
maneira de o Incra assentá-los, de fazer um entendimento com
os fazendeiros, arrecadar as áreas e repassá-las para os
trabalhadores. Mas a invasão não leva a lugar nenhum. Eles
nunca vão ter a legalidade, e nós [fazendeiros] também
não.
A fazenda onde fizeram o acampamento Renascer era
produtiva ou os trabalhadores tinham alguma razão para
ocupá-la?
Não tinha problema nenhum. Faz 10, 12 anos que eu comprei as
terras e hoje alugo para um pecuarista que tem 2000 bois. E os
trabalhadores invadiram a sede, mataram boi dele. Ele tinha
medo de denunciar na época. Encontrou quem tinha matado os
bois, mas isso é uma longa história...
Você acredita que o Incra desempenha um bom trabalho
na região?
O Incra pede para invadir. A União é a dona das terras, o
Incra é o intermediário, mas ele toma a frente e bota os
trabalhadores para entrar irregulares nas áreas. Daí é que
surgem os atritos: o fazendeiro fica nervoso e o sem-terra
também.
De onde vem o apelido "Chapéu Preto"?
É dos tempos de colégio. Eu gostava de dar chapéu nos outros,
quando jogava bola. Mas isso tem trazido uma grande confusão,
porque todo mundo pensa que o "Chapéu Preto" é um terror.
Devem pensar que tem relação com
pistolagem...
Isso... Muita gente faz essa relação, mas não tem nada a
ver.