As tecnologias da informação e da comunicação (TICs) ocupam um papel central no desenvolvimento da moderna economia e da sociedade, o que tem profundas implicações na educação. Entretanto, a incorporação das TICs no entorno escolar não é um processo simples nem linear. Não basta enviar computadores aos centros docentes; também é necessário levar em consideração o contexto social e familiar dos alunos, as condições das escolas, os modelos de ensino, aprendizagem e avaliação existentes, os programas e materiais de informática disponíveis, e as competências dos professores.
A importância estratégica da incorporação das TICs na Ibero - América é enfrentada com enorme dificuldade que se deve levar em consideração. As camadas de baixa renda na América Latina e no Caribe representam 40,6% da população; o número de analfabetos gira em torno de 34 milhões de pessoas, quase 10% da população, e 40% dos jovens e adultos não concluíram os estudos da Educação Básica.
Segundo dados do Banco Mundial de 2004, os usuários de Internet nos Estados Unidos totalizavam 64% da população, na Europa 44% e na América Latina e no Caribe 11,5 %. Além disso, existem profundas diferenças entre os países ibero-americanos: no Chile, por exemplo, 14% da população têm acesso à Internet por banda larga, ao mesmo tempo em que não chega nem a 1% em países como Bolívia, Nicarágua ou Paraguai. Estas diferenças estão presentes também dentro de cada país: no Brasil e Uruguai, menos de um quinto da população com maiores ingressos dispõe de conexão, enquanto que esse percentual não chega a 3% somando-se os dois quintos de ingressos inferiores.
Por tudo isso, a incorporação das TICs na educação ibero-americana deve ser feita desde uma perspectiva global do que significam as mudanças educacionais. É imprescindível melhorar o nível educacional da população e conseguir, conseqüentemente: que todas as pessoas sejam alfabetizadas (o que supõe também deixar para trás o analfabetismo digital e o analfabetismo cívico e ter alcançado as capacidades que constituem os objetivos da educação básica); que todos os alunos sejam escolarizados durante 12 anos; e uma oferta educacional de similar qualidade para todos eles o que exige tempo suficiente de ensino, professores preparados e valorizados, materiais disponíveis e uma gestão eficaz do sistema educacional e das escolas.
Paralelamente, é necessário impulsionar a incorporação das TICs nas escolas. Para isso, é necessário incrementar de forma progressiva a dotação de computadores com conexão à rede por banda larga, assegurar a sustentabilidade da iniciativa e seu apoio técnico, adaptar os conteúdos digitais à situação de cada país, passar do modelo de uma sala de computadores ao de computadores em todas as salas, integrar as TICs nas distintas matérias e áreas do currículo e formar os professores.
Neste contexto, a Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) está desenvolvendo um conjunto de estratégias para aproveitar o conhecimento acumulado na região ibero-americana e cooperar com as políticas públicas dos países. Uma destas iniciativas é a constituição de grupos de especialistas ibero-americanos para que colaborem nos projetos considerados estratégicos. Junto com os grupos dedicados aos programas de alfabetização, a reformas e qualidade do ensino, a valores e cidadania e à formação profissional, por citar algum deles, se formou também o grupo de especialistas em TIC. Sua tarefa deve ser desenvolvida em estreito contato com a realidade social e educacional ibero-americana mas devem contribuir de forma específica para que as TICs sejam capazes de desenvolver todo seu potencial nas escolas e na vida dos jovens. O apoio da Fundação Santillana à primeira reunião do grupo de especialistas ibero-americanos em Madri e a dedicação da habitual Semana Monográfica anual a este tema deram um importante impulso para a realização destes objetivos e serviram ao mesmo tempo para ressaltar a importância do trabalho coletivo ibero-americano frente aos desafios presentes e futuros.
Álvaro Marchesi é secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).
19 de Novembro de 2007 |